20 de out de 2015

Únicos há mais de três anos no cargo, os três técnicos mais longevos do Brasil subiram

Brasil de Pelotas, Londrina e Ypiranga de Erechim. Três clubes do interior e do Sul que festejaram, entre as Séries C e D, acessos durante o final de semana. E que têm muito mais em comum entre si. Todos eles viveram ascensões marcantes nos últimos anos: vieram da segunda divisão estadual, alcançaram o sucesso na volta à elite e emplacaram no torneio nacional. Escalada que não possui uma fórmula mágica, mas a receita de trabalhos contínuos. Os três sulistas mantêm os seus técnicos há pelo menos três anos, casos raros no imediatismo do futebol brasileiro. Rogério Zimmermann, Claudio Tencati e Leocir Dall’Astra são justamente os técnicos mais longevos entre os 100 clubes que disputaram as divisões nacionais em 2015.
Tencati chegou ao Londrina em abril de 2011. Já no ano seguinte, em fevereiro, Dall’Astra foi anunciado pelo Ypiranga, enquanto Zimmermann voltou ao Brasil de Pelotas em abril. Em todos os outros 97 clubes entre as Séries A e D, nenhum treinador está há mais de dois anos no emprego. Além disso, somente mais sete já tinham iniciado os seus trabalhos em 2014: Levir Culpi (Atlético Mineiro), Givanildo Oliveira (América Mineiro), Vica (ASA de Arapiraca), Betinho (Confiança), Flávio Araújo (River), Francisco Diá (Campinense) e Luis Carlos Winck (Lajeadense). Verdadeiros privilegiados na ciranda de técnicos do país. E todos os que disputaram as divisões inferiores chegaram até os mata-matas para brigar pelo acesso.
Entre os três mais duradouros, o caso mais emblemático é o do Ypiranga. Afinal, Leocir Dall’Astra enfrentou sérios percalços desde a sua chegada ao clube de Erechim. O treinador assumiu o time durante o Campeonato Gaúcho de 2012, quando os Canários já ocupavam a lanterna e eram candidatos fortíssimos ao rebaixamento. Não conseguiu salvá-los, mas ficou. Naquele mesmo ano, caiu nas quartas de final da Copa FGF, goleado pelo Juventude por 6 a 0. E, na temporada seguinte, Dall’Astra também não alcançou o acesso no estadual de imediato. Mesmo assim, recebeu créditos da diretoria. Com o time sem atividades no segundo semestre de 2013, o técnico chegou a deixar o Ypiranga por algumas semanas, mas sem romper seu vínculo. Dirigiu o Riograndense interinamente por dois jogos.
Só a partir de 2014 é que seu trabalho em Erechim engrenou. Conquistou o principal objetivo, campeão da segundona gaúcha, e recebeu um pouco mais de investimentos na elite estadual. Com Paulo Baier no elenco, os Canários terminaram com a quinta colocação no Gaúcho e ganharam a vaga na Série D. Já no torneio nacional, o Ypiranga manteve a consistência. O time de Dall’Astra liderou um grupo difícil na primeira fase, eliminou o Rio Branco-AC nas oitavas de final e celebrou o acesso em um jogo dramático diante da Caldense, no Estádio Colosso da Lagoa. O empate por 1 a 1 se repetiu em Erechim e a decisão seguiu para os pênaltis, quando o goleiro Carlão brilhou e garantiu a vitória por 4 a 3. Dall’Astra correspondeu ao apoio do clube, ajudando a colocar o Ypiranga na Terceirona pela primeira vez desde 1995.
Claudio Tencati, por sua vez, assumiu o time principal do Londrina em 2011, após trabalhar em categorias de base. O comandante pegava uma bomba, já que no ano anterior o Tubarão não tinha conseguido conquistar o acesso à primeira divisão do Paranaense. Missão cumprida logo nos primeiros meses, vencendo o Toledo na final. Já nas temporadas seguintes, o técnico melhorou gradativamente os resultados: foi quinto e terceiro na elite do estadual, até quebrar o jejum de 23 anos sem a taça em 2014. Já na Série D, depois de cair nas oitavas de final em 2013, buscou o acesso no ano seguinte. Ao mesmo tempo, ia revelando bons nomes, como o volante Bruno Henrique, o lateral Wendell e o atacante Joel.
Entretanto, 2015 não começou tão bem para o Londrina. O Tubarão chegou a estar ameaçado de rebaixamento na Paranaense, o que também quase custou o emprego de Tencati. Após conversar com a diretoria sobre os seus planos, o treinador se segurou no cargo e conseguiu a recuperação no estadual. Mesmo com propostas de clubes da Série A, preferiu lutar na Terceirona. E emendou mais um feito nacional, ao bater o Confiança e confirmar o acesso. Tencati coloca o Londrina na Série B depois de 12 anos, para disputar sua 20ª temporada no segundo nível do Brasileiro.
Por fim, Rogério Zimmermann é o veterano a menos tempo no cargo atual. Chegou a um cenário de terra arrasada no Brasil de Pelotas, especialmente pelas quedas sucessivas e pela tragédia com o ônibus do clube em 2009. No entanto, já contava com boas credenciais entre os rubro-negros: havia passado pelo Bento Freitas em meados dos anos 2000 e conquistado o acesso no estadual em 2004. Assim, assumindo o trabalho durante a segundona gaúcha, não teve problemas em não subir de imediato. Mas compensou no segundo semestre, levando o Xavante até a decisão da Copa FGF de 2012.
Já no ano seguinte, Zimmermann cumpriu a principal missão, conquistando a divisão de acesso do Gaúcho, embora também tenha enfrentado dificuldades. Em setembro de 2013, perdeu a final da Copa Sul Fronteira para o Pelotas, que não vencia o clássico havia uma década. Apesar da derrota história, resistiu à frente dos rubro-negros. E registrou os seus maiores feitos a partir de 2014, duas vezes terceiro colocado na elite estadual e duas vezes bem-sucedido na ascensão do Brasileirão. A glória se completou em uma campanha cheia de percalços durante a Série C, tendo que conviver com a perda de alguns dos principais jogadores no meio da campanha. O time que liderava seu grupo correu riscos de nem ir aos mata-matas, mas se recuperou a tempo e venceu o drama contra o Fortaleza no Castelão.
Por mais que a manutenção do técnico seja apontada quase sempre como ideal, é raro ver isso aplicado na prática. Basta a primeira sequência de resultados ruins ou uma derrota pesada para derrubá-lo. Mas Brasil, Londrina e Ypiranga fugiram desta prática comum. Zimmermann, Tencati e Dall’Astra receberam a segurança necessária para os seus trabalhos, com tempo para a formação de um time. Mantiveram boa relação com os dirigentes e montaram os seus elencos vencedores desde as segundonas estaduais. E agora colhem os frutos, melhorando o desempenho de maneira gradativa.
É claro, nem sempre um trabalho de médio e longo prazo vai culminar em conquistas. Pode até ser que Zimmermann e Tencati, em especial, tenham se mantido pelas boas campanhas que se iniciaram logo nos primeiros meses, mesmo correndo riscos algumas vezes. Mas não parece ser apenas coincidência que três clubes bem estruturados tenham obtido sucesso através de seus treinadores longevos. Afinal, a sequência de trabalho ajuda a explicar boa parte das virtudes dos times.
Os três acessos em dois dias bem que poderiam abrir os olhos dos dirigentes, mostrando a importância de uma aposta duradoura – ainda que seja tão difícil aplicar a teoria bonita no papel em prática na dura realidade. Brasil, Londrina e Ypiranga conseguiram fazer isso.

Do: Trivela
Vamos continuar apostando na Timemania

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